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Painel cultural

Os ombros suportam o mundo
14/04/2004

     Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
     Tempo de absoluta depuração.
     Tempo em que não se diz mais: meu amor.
     Porque o amor resultou inútil.
     E os olhos não choram.
     E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
     E o coração está seco.
     
     
     Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
     Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
     mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
     És todo certeza, já não sabes sofrer.
     E nada esperas de teus amigos.
     
     
     Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
     Teu ombros suportam o mundo
     e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
     As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
     provam apenas que a vida prossegue
     e nem todos se libertaram ainda.
     Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
     prefeririam (os delicados) morrer.
     Chegou um tempo em que não adianta morrer.
     Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
     A vida apenas, sem mistificação.

Fonte: Carlos Drummond de Andrade

Publicado por: Audrey Furlaneto

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