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Painel cultural

Carta de um brasileiro
24/05/2006

     Ter uma vida digna...
     Como falar em dignidade quando nem sei o que é viver?
     Não saber ler, escrever por acaso faz alguém digno?
     Fome, frio, medo, desprezo, com isso convivo;
     O que é essa dignidade que vocês tanto falam?
     
     Falar em dignidade do alto de seus prédios é muito fácil;
     Queria ver os senhores revirando lixo para sustentar a família;
     Na arte de falar posso não ser muito hábil,
     Mas a “arte” de viver pratico com maestria;
     
     A sua constituição tem um texto lindo;
     Fala em direito para todos;
     Mas não para um mendigo;
     Um coitado que vive no mundo dos excluídos.
     
     Uma classe criada por vocês mesmos,
     Que agora dizem querer protegê-los,
     Seria isso uma culpa, um remorso?
     Ou será apenas uma forma de engrandecer-se?
     Fazer sua glória à custa de miseráveis?
     
     Posso não ser bom em convencer os outros;
     Mas me convenço todos os dias,
     Que mais uma vez preciso de força,
     Força para suportar tudo, para encarar e vencer,
     Para que possa arranjar comida,
     Para continuar a viver.
     
     Por esse motivo não me deixo convencer,
     Espero sim a ajuda,
     Mas não quero que alguém me carregue,
     Para que possa sentir-me capaz,
     E não mais um inútil como fez de mim a sociedade.
     
     Sim, eu tenho uma vida digna,
     Muito mais digna que a de vocês,
     Não por posses nem por status,
     Mas pela minha honra;
     Honra que ninguém me deu, mas eu sozinho conquistei,
     Com minhas lutas, para superar meus próprios limites.
     
     Desejo melhorar cada vez mais,
     Mas não sonho em conquistar o mundo;
     Deixei isso para os sonhadores,
     Meu único sonho é viver bem, ser alguém,
     E não mais um número nas estatísticas.
     
     Quero conquistar meu mundo, onde possa ser reconhecido,
     Por onde eu passar as pessoas me digam oi,
     Ao invés de esconderem suas bolsas,
     É por isso que luto,
     Não por dinheiro, mas por direitos,
     Aqueles direitos que eu deveria ter, mas que me foram negados.
     
     A todos vocês um forte abraço,
     De uma pessoa igual a todos,
     Apenas mais um, cidadão brasileiro.

Publicado por: Flavio Augusto Odizio

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