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O presidente da Chechênia e o abismo das relações
15/05/2004
Dez minutos já se passavam e os dois continuavam lado a lado, os vidros do carro fechados e o rádio ligado não se sabe em que, mas não fazia diferença, porque ninguém ouvia. O pai continuava a trocar as marchas e nem precisava prestar atenção. A filha sabia o que ele pensava, ele sabia o que ela queria, mas nada fazia diferença, já que ninguém dizia.
Os sinais brincavam entre o vermelho e o verde. Nervoso, ele acendeu um cigarro, talvez o décimo daquela manhã que acabava de começar. Depois de poucos minutos, vidro fechado mais uma vez para espantar o frio. Sem os ruídos da cidade, o silêncio voltava, mas não fazia diferença, porque quase ninguém percebia.
Mais alguns metros na avenida e nada de palavras. Ela ensaiava algo do tipo: “Você volta tarde hoje?”. Nada. No sinal de “Pare”, enquanto observava os carros, talvez ele também ensaiasse alguma pergunta: “Você viu que os mamões estão estragando?”. Nada. E a cada minuto era o abismo que se abria e, sim, fazia toda a diferença, porque ele também sentia.
Em todo aquele balé mudo, espécie de diálogo de surdos, a tensão crescia. O carro avançava, ele não falava e ela também não dizia. Ela pensou que se tivesse de óculos escuros tudo seria mais simples: sem olhos é mais fácil aceitar o que não se vê, o abismo não tem cores e nem profundidade. Seria bom se tivesse alguma coisa à mão para disfarçar a tensão que só crescia. Se soubesse que aquela seria a sua ilha deserta, teria levado Manuel Bandeira: “Quando meu pai era vivo, a morte ou o que quer que me pudesse acontecer não me preocupava, porque eu sabia que, pondo a minha mão na sua, nada haveria que eu não tivesse a coragem de enfrentar”. As palavras do poeta a deixavam ainda mais tensa. De alguma forma, seu pai a escutava. O mais difícil era saber que as mãos dele estavam ali, ocupadas com o volante e separadas dela por um abismo que duraria mais do que o trajeto daquela manhã.
Depois do último semáforo, ela teria de descer. Ele ligou a seta e parou no sinal vermelho. O silêncio, que já durava 15 minutos, era de doer os ossos. O sinal ainda estava vermelho, quando ele disparou, sem colocar entonação na voz: “Mataram o presidente da Chechênia”. Ela respondeu também com a voz muda: “Estou sabendo”. Ela esperava a pergunta dos mamões. Ele esperava a pergunta sobre aquele dia de trabalho. Mas a distante Chechênia surgiu, enfim, para quebrar o silêncio. De alguma forma, naquele momento, puderam sentir as mãos dadas, mas não faria diferença, porque, vivo ou morto o presidente da Chechênia, o abismo sim, o abismo ainda existia.
Publicado por: Audrey Furlaneto
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