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Notícias e interesses
17/05/2004
O episódio envolvendo o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e o “New York Times” revela algumas facetas interessantes. Que a matéria do jornal é execrável e digna de repulsão nem se discute. Mas esse aspecto sai do foco da discussão e dá lugar ao ‘autoritarismo’ do governo federal quando expulsa o jornalista americano que assinou a ‘reportagem’, se pudermos classificar tal texto desta forma para não ofender aos jornalistas comprometidos com a verdade da informação.
A publicação desta ‘notícia’ não é um fato isolado na conduta da imprensa americana. Lembremos que, recentemente, essa mesma imprensa divulgou informações sobre a negativa do Brasil em abrir as instalações nucleares de Angra a equipes internacionais. O Brasil faria parte do eixo do mal por querer desenvolver armas nucleares. A imprensa americana não citou, por exemplo nesse caso, que o Brasil está para entrar para um seleto time de países que dominam a tecnologia de enriquecimento de urânio, nem mesmo que o Brasil torna-se, com isso, concorrente direto dos Estados Unidos no mercando mundial.
O presidente Lula, gostem ou não os opositores, conseguiu em pouco tempo de mandato estabelecer alguns debates internacionais como, por exemplo, o combate à fome. O país tem ganhado muitas ações na Organização Mundial do Comércio, também contra os Estados Unidos. O Brasil impõe limites para aderir à Alca, cuja proposta inicial interessa apenas aos EUA.
Esse comportamento rebelde do brasileiro em confrontar a supremacia americana (lembrem-se que o World Trade Center ruiu), não incomoda os americanos? Atacar a imagem do presidente é atacar, antes de tudo, a imagem do país e o projeto da nação brasileira.
A reação do governo em expulsar o jornalista Larry Rohter fez levantar algumas entidades, como a Associação de Correspondentes da Imprensa Estrangeira, cujos representantes afirmam que o governo fere a liberdade de imprensa. Mas essa mesma entidade não defendeu a ética nem a veracidade, valores do jornalismo que foram rasgados por tal ‘reportagem’ e cuspidos pelo NYT.
A quem interessa a desmoralização do governo brasileiro? A quem serve o NYT e o resto da imprensa americana? Interesse, aliás, é a palavra que se esconde por trás da liberdade de imprensa. Não foi a imprensa americana que serviu aos propósitos militares daquele país no Afeganistão e no Iraque na construção da opinião pública mundial? Não foram os americanos que bombardearam as redes de televisão árabes durante esses conflitos?
Defender a liberdade de imprensa por si só não garante a democracia. A liberdade de imprensa e a de expressão não estão acima da responsabilidade do jornalista com a verdade. Essa verdade deve ser checada, rechecada, investigada porque, muitas vezes, se contamina com interesses econômicos, políticos e ideológicos dos próprios veículos de comunicação. Se a imprensa americana defende seus interesses, assim como o governo estadunidense, e usa esse tipo de arma, que o Brasil use as suas.
* Reinaldo Zanardi é jornalista e professor universitário em Londrina. O artigo foi publicado também na Folha de Londrina e no Jornal de Londrina.
Publicado por: Audrey Furlaneto
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