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Realidade & Crítica

Economia e Negócios - Não há mau tempo para os bancos
01/03/2006

     Quando a economia vai mal, eles vão bem. Quando a economia vai bem, eles vão melhor ainda Carlos Rydlewski e Chrystiane Silva
     
     Analistas das mais diversas tendências sempre nutriram a idéia de que o lucro excepcional dos bancos cairia à medida que a economia brasileira entrasse nos trilhos. Isso porque, com o equilíbrio das contas públicas, as instituições financeiras não teriam ganhos tão grandes com títulos públicos, usados pelo governo para financiar sua dívida e seus gastos. Em contrapartida, e para compensar essa perda de receita, elas seriam obrigadas a fazer o que se espera delas. Ou seja, competir entre si e emprestar mais dinheiro a pessoas e empresas. O que ninguém previu é o cenário atual, em que os bancos vivem no melhor dos dois mundos: ganham com as necessidades de financiamento do governo e, ao mesmo tempo, lucram com empréstimos a pessoas e empresas. A coincidência desses dois fatores positivos para os bancos explica seus formidáveis resultados. Em 2005, o Bradesco, o maior banco privado brasileiro, teve ganho líquido de 5,5 bilhões de reais, o maior em 62 anos, num salto de quase
     80% em relação a 2004. O Itaú lucrou 5,2 bilhões de reais; o Banco do Brasil, 4,1 bilhões de reais; e o Unibanco, 1,8 bilhão de reais. Os números também mostram que, nos últimos três anos, essas instituições se tornaram muito mais rentáveis. O Itaú é campeão nesse quesito, com taxa de rentabilidade de 37,6% sobre o patrimônio. Nem os maiores grupos americanos conseguem realizar feito semelhante. O Citigroup, por exemplo, tem rentabilidade de apenas 22%. Mas como o setor financeiro consegue lucrar tanto atuando numa economia que, nos últimos dez anos, cresceu apenas 2,5% em média? Vários fatores explicam esse contraste. O mais antigo deles é a ineficiência do governo. Bancos aprenderam a ganhar dinheiro com os desequilíbrios da economia brasileira e isso não vai mudar tão cedo. Nos últimos dez anos, as quatro maiores forças do sistema bancário nacional, o Bradesco, o Itaú, o Banco do Brasil e o Unibanco, melhoraram em 26,7% o resultado com negócios com títulos. Isso
     ocorre porque o governo gasta muito e, para financiar o déficit em seu Orçamento, paga taxa de juro elevada. Como conseqüência, os bancos preferem emprestar ao governo. É uma máxima desde tempos imemoriais: o melhor empréstimo é aquele que não oferece risco de inadimplência. Governos não entram em falência e raramente dão calotes. Como dizia o banqueiro americano John Pierpont Morgan (1837-1913): "O que move nosso negócio não é o dinheiro, mas a confiança. Dinheiro para aqueles em quem confio é barato e não precisa de garantias". Por terem no Estado brasileiro um cliente confiável e ávido por recursos, os bancos só muito recentemente se preocuparam mais em ganhar dinheiro com a oferta de crédito para o setor privado. Em 2004, o total de recursos disponíveis para concessão de empréstimos representava 27% do produto interno bruto (PIB). Em 2005, atingiu 31%. Mas, proporcionalmente, ainda é pouco. Na Coréia do Sul e no Japão, esse porcentual fica em torno de 100%. Na China,
     150% e, nos Estados Unidos, bate em 250% – oito vezes maior que o brasileiro. A maior fatia do lucro dos bancos brasileiros, porém, não vem dos títulos públicos. Vem da soma de tarifas cobradas e do volume cada vez maior de empréstimos ao setor privado. A grande estrela em 2005 foi o sistema de crédito consignado, em que os descontos das prestações são feitos diretamente na folha de pagamento dos trabalhadores. O volume emprestado nessa modalidade avançou 75% no ano, totalizando uma oferta de 33,1 bilhões de reais. Não é difícil compreender o fenômeno. A cobrança em folha diminui o risco de calotes e permite ganhos mais seguros aos bancos. Por isso, as taxas de juro são menores – as do consignado foram em média de 37% ao ano, ante 86% dos empréstimos convencionais. Já o aumento da receita dos bancos com tarifas foi de 17% no ano passado. É comum ouvir que os bancos no Brasil são entidades privilegiadas que sufocam o setor privado. Isso porque cobram os juros mais altos
     do mundo sem se submeter ao Código de Defesa do Consumidor ou ao Sistema de Defesa da Concorrência. O presidente do Bradesco, Márcio Cypriano, discorda. Segundo ele, o lucro dos bancos é sinal de progresso econômico para o país porque, com ele, se pagam dividendos a acionistas, impostos, salários e benefícios aos funcionários. Diz o principal executivo do Bradesco: "O crédito é fundamental para alavancar o crescimento da economia. O que falta, agora, é as empresas voltarem a fazer novos empreendimentos e investir". A polêmica sobre o assunto facilmente transborda para o terreno da ideologia e da política. Os lucros acumulados pelos cinco maiores bancos brasileiros cresceram 22,9% apenas nos três anos do governo Lula, em comparação com todos os oito anos da administração de Fernando Henrique Cardoso – 44,1 bilhões de reais contra 35,9 bilhões de reais. Essa comparação deve ser vista com cuidado. É verdade que, ao ampliar o crédito consignado, o governo Lula permitiu aos
     bancos alavancarem seus ganhos. Mas durante o mandato de FHC os bancos tiveram a favor uma taxa média de juro mais alta. É por isso que faz mais sentido concluir que os bancos aumentaram seus lucros porque passaram a ganhar dinheiro com empréstimos ao setor privado sem que tenham deixado de lucrar com a gastança pública – é o melhor dos dois mundos de que se falava no começo desta reportagem.

Fonte: Carlos Rydlewski e Chrystiane Silva

Publicado por: Carlos Rydlewski e Chrystiane Silva

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